Corta-me os lábios,
Fere a pele que me envolve dentro de mim,
Lambe o sangue que a ti te devo.
Ontem queimei o sonho de te ver por perto,
Viajei pelo inferno laranja-vivo onde me procuravas
E fugi de ti.
Tapei-me de novo com os lençóis enrodilhados e húmidos,
Retive a respiração
E senti a lâmina crespar-se na carne viva já morta pela vida.
Cerrados, os meus olhos não viram o que o meu nariz sentira.
O que fluiu
- nada mais do que umas gotas de recordações, de saudade-
Manchou a nossa cama de negro.
Uma mancha que desenhava uma nuvem de palavras perdidas,
Devaneios repletos de reticências sem fim,
E que dissolvia a armadura de um cavaleiro da noite
Que acabou por desaparecer.
O odor, prolongado no meu corpo,
Ocupou o lugar do teu, embrenhado na minha roupa envelhecida.
Dei por mim a saborear as lágrimas que tombavam da minha cara
E a beijar as tuas mãos ausentes.
Quero-te aqui. Mata-me.
Morre comigo
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
Inspirou-me, sim, ele
Vidas errantes
Quanto corri
Atrás de um pôr-do sol que não chegou
De uma folha de papel que fugia com o vento
De uma ideia sobre a vida e os tempos e as vontades.
Encontrei gentes
Todas iguais
Todas inseguras
Todas à procura de um fim.
Não segui
Os passos de ninguém.
Aqui neste mundo,
Onde a terra é azul como uma laranja
E os prados semeiam armas,
Não há razão de ser nem meta,
há o prazer fortuito,
há a saudade do não vivido,
há o hoje e o agora.
Deixei de correr,
Parei.
Para ver o entardecer chegar.
Quanto corri
Atrás de um pôr-do sol que não chegou
De uma folha de papel que fugia com o vento
De uma ideia sobre a vida e os tempos e as vontades.
Encontrei gentes
Todas iguais
Todas inseguras
Todas à procura de um fim.
Não segui
Os passos de ninguém.
Aqui neste mundo,
Onde a terra é azul como uma laranja
E os prados semeiam armas,
Não há razão de ser nem meta,
há o prazer fortuito,
há a saudade do não vivido,
há o hoje e o agora.
Deixei de correr,
Parei.
Para ver o entardecer chegar.
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
homenagem ao poeta da natureza
A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo
cintila,
a boca espera
(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)
espera o ardor
do vento
para ser ave,
e cantar.
Eugénio de Andrade
onde o fogo
de um verão
muito antigo
cintila,
a boca espera
(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)
espera o ardor
do vento
para ser ave,
e cantar.
Eugénio de Andrade
terça-feira, 13 de novembro de 2007
Ser ou não ser

Estou num dia de ser ou não ser, de estar ou não estar, da dúvida que não termina de me assolar com as suas agulhas de vidro. Sem entusiasmo e deixando que o tédio me agonie, penso num gelado, num coktail formidável ou naquela peça de fruta fora de época...mas assim que realizo todos estes desejos efémeros, volto a sentir que não sou, que não estou, que me perdi. Como um rebuçado de mentol que nunca acaba ou uma voz que nos domina segundo a segundo, grito: Estou farta. Farta.
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
Meco
Uma estrela, mais uma e outra iluminam a estrada acidentada que me leva até ao íntimo dos meus desejos. Chegar.
A noite já caiu e o fumo das lareiras estagnou em frente à lua, a namorá-la num jogo de vai-e-vem sem fim. Cheiro aquele desenho com o prazer espalmado no meu rosto de quem instantaneamente é transportada para a doçura da infância, as palavras meigas, as festas ao colo da avó e as reuniões familiares aquecidas pelo fogo. Ali permaneço enquanto fecho os olhos e deixo o corpo rodar à volta de um eixo imaginário que é a única coisa que me prende ainda à terra. A ficção.
Solitária mas com a sensação de ocupar espaço e deixar a presença fluir por outros corpos, deambulo por entre as poucas portas abertas que deixam escapar palavras soltas. “É a atitude dela que me deixa assim”, “Já nada é como era”, “Olha aqui era onde eu costumava sentar-me a contar pedrinhas, uma a uma”. No final de uma noite de sábado catapulta-se o lado b da vida, as entrelinhas que só revelamos naquelas ocasiões.
Aqui o meu ser é livre. Apodera-se de mim este ambiente de paragem no tempo e voo tão longe quanto posso na memória dos vivos e dos mortos. Amanheço-me.
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