terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Corta-me

Corta-me os lábios,
Fere a pele que me envolve dentro de mim,
Lambe o sangue que a ti te devo.

Ontem queimei o sonho de te ver por perto,
Viajei pelo inferno laranja-vivo onde me procuravas
E fugi de ti.
Tapei-me de novo com os lençóis enrodilhados e húmidos,
Retive a respiração
E senti a lâmina crespar-se na carne viva já morta pela vida.
Cerrados, os meus olhos não viram o que o meu nariz sentira.

O que fluiu
- nada mais do que umas gotas de recordações, de saudade-
Manchou a nossa cama de negro.
Uma mancha que desenhava uma nuvem de palavras perdidas,
Devaneios repletos de reticências sem fim,
E que dissolvia a armadura de um cavaleiro da noite
Que acabou por desaparecer.
O odor, prolongado no meu corpo,
Ocupou o lugar do teu, embrenhado na minha roupa envelhecida.
Dei por mim a saborear as lágrimas que tombavam da minha cara
E a beijar as tuas mãos ausentes.

Quero-te aqui. Mata-me.
Morre comigo

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Inspirou-me, sim, ele

Vidas errantes

Quanto corri
Atrás de um pôr-do sol que não chegou
De uma folha de papel que fugia com o vento
De uma ideia sobre a vida e os tempos e as vontades.

Encontrei gentes
Todas iguais
Todas inseguras
Todas à procura de um fim.

Não segui
Os passos de ninguém.

Aqui neste mundo,
Onde a terra é azul como uma laranja
E os prados semeiam armas,
Não há razão de ser nem meta,
há o prazer fortuito,
há a saudade do não vivido,
há o hoje e o agora.

Deixei de correr,
Parei.
Para ver o entardecer chegar.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

homenagem ao poeta da natureza

A boca,

onde o fogo
de um verão
muito antigo

cintila,

a boca espera

(que pode uma boca
esperar
senão outra boca?)

espera o ardor
do vento
para ser ave,

e cantar.
Eugénio de Andrade