sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

JORNALISTA DESPEDIDA POR USAR FRASE DE HEGEL

Julianne Ziegler, apresentadora do programa Night Loft do canal alemão Prosieben, foi despedida por ter usado a frase "Arbeit macht frei" para incentivar um concorrente a responder a uma pergunta.

Não julgo a sensibilidade e a lei alemãs em relação a "símbolos" nazis como este, que se encontra estampado no portão de acesso ao campo de concentração de Auschwitz, entre outros. Estes anos negros da história alemã continuam a marcar a mentalidade alemã que evita a todo o custar abordar o assunto tabu...Uma atitude compreensível quando se sabe que, em cada lar alemão, os álbuns de família incluem fotografias de pessoas que voluntaria ou involuntariamente contribuiram para o regime...Tal como os nossos avós estiveram todos, de uma forma ou de outra, implicados no regime de Salazar, menos sanguinário, menos xenófobo, mas tão injusto e hípócrita quanto a ditadura de Hitler.



Sinto-me implicada nesta história...E vou contar-vos porquê...

Andava eu por Varsóvia a estudar num campus universitário com 100 estudantes oriundos de 30 países diferentes e, chegadas as férias de Natal, uma polaca escreveu um e-mail que terminava com "O trabalho liberta", para transmitir a felicidade que sentia com a chegada do fim de um trimestre de tabalho intensivo, de exames e de um dia-a-dia rotineiro e pesado.

A reacção alemã foi idêntica à deste episódio e tocou-me especialmente por ter sido encabeçada por alguém que me era próximo: a mensagem de resposta explanava agressivamente que ninguém tinha o direito de empregar aquela frase inadequadamente por respeito à memória do episódio mais trágico da humanidade: o extermínio de milhões de pessoas em campos de concentração nazis.

Nunca consegui resolver este dilema entre um moralismo alemão que é consequência de um peso de consciência justificado e a atitude de uma polaca que mostrou um grande desprendimento em relação à história trágica que o seu país sofreu (ao oongo de vários séculos aliás...), usando uma frase tão polémica para exprimir sentimentos tão positivos.

O meu coração estava demasiado perto de ambos os lados para conseguir discernir quem teria mais razão. Compreendi nesse momento que, mais importante do que o veredicto final, seria haver uma maior abertura para se debaterem estes e outros assuntos, sem atitudes radicais...

Na Alemanha, será que são as leis que vão impedir o ressurgimento de um verdadeiro movimento nazi (que aliás nunca deixou de existir)? Será que a atitude da jornalista alemã não demonstra que o peso de consciência alemão já começa a ser ultrapassado?

Não gosto de saber que uma jornalista é despedida assim sem mais nem menos.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008



CRITICAR O MIGUEL SOUSA TAVARES É QUE NÃO!


A crítica literária que hoje se produz não é de confiança ou se calhar nunca o foi. Julgam-se os escritores como quem julga matemáticos, constroem-se grandes argumentos à volta do que eu não considero argumentável num livro. Falo daquela sensação intransmissível de prazer/misticismo/cumplicidade/desassossego/repugnância que um livro pode criar em nós, sem mencionar ainda os estados de alma que caracterizam o momento da leitura e que os influeciam por completo...retirar toda esta subjectividade a um livro é matá-lo. Por isso os meus críticos literários preferidos chamam-se Teresa, Rosa, Tiago, e não nomes que soam bem na praça pública...Os critérios dos críticos que criteriosamente fazem uma "repérage" em dois tempos dos erros dos autores, textos muitas vezes escritos para ontem segundo a minha experiência pessoal de jornalista de imprensa escrita, raramente tocam nestes detalhes que tornam a leitura numa das actividades mais mágicas do ser humano que, entre os seus olhos e as palavras escritas por outrém recorre, à imaginação para criar um mundo paralelo e que só a ele pertence...

Quanto ao escritor Miguel Sousa Tavares (por quem eu assumo desde já ter uma admiração por ser uma pessoa "completa" no sentido cívico e cultural do termo): eu tive o prazer de devorar o Equador em três dias, em dias de refúgio de um inverno violento em Berlim. Recordo ver o dia amanhecer da minha sala aquecida por um forno a carvão e sentir que só o meu corpo, despegado da minha mente, ali estava. Realizei a minha primeira viagem a África através deste livro que, com uma linguagem tão depurada e acções ritmadas pelos ambientes em que se encontravam as personagens, só me pareceu pecar pela caracterização das personagens Luís Bernardo e David, gémeos falsos de duas nacionalidades distintas. Para primeiro romance de um autor, o Equador é uma obra de ficção mais ou menos histórica que vale a pena ser lida...O Rio das Flores vai ficar para depois...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008


Parvos ou não, têm poucas mas boas palavras a dizer sobre este assunto...Só se pica quem...


Será que o Baden Powell se esqueceu de ensinar o que é a diferença entre uma ofensa e o sentido de humor? Ou será que o seu militarismo o impedia de pensar fora das lentes pelas quais ele via o mundo...sem ter em consideração que havia um mundo para além delas por descobrir?

E passo a citar O Director Criativo: Um campanha parva, com uma reacção parva. Parece que afinal a "Parvónia" existe mesmo...

Poema Fado da Saudade (Carlos do Carmo e Fernando Pinto do Amaral)

Aqui fica o poema de Fernando Pinto do Amaral, que Carlos do Carmo cantou no filme Fados, de Carlos Saura, e que lhe valeu o Prémio Goya para a Melhor Canção Original!
Cliquem no título deste post para ouvir a canção...


Nasce o dia na cidade, que me encanta
Na minha velha Lisboa, de outra vida
E com um nó de saudade, a garganta
Escuta um fado que se entoa à despedida…
E com um nó de saudade, a garganta
Escuta um fado que se entoa à despedida…

Foi nas tabernas de Alfama, em hora triste,
Que nasceu esta canção, o seu lamento
Na memória dos que vão tal como o vento,
O olhar de quem se ama e não desiste…
Na memória dos que vão tal como o vento,
O olhar de quem se ama e não desiste

Quando brilha a antiga chama ou sentimento,
Oiço este mar que ressoa enquanto canta
E Da Bica à Madragoa, num momento,
Volta sempre esta ansiedade da partida,
Nasce o dia na cidade que me encanta,
Da minha velha Lisboa de outra vida…


Quem vive só do passado sem motivo,
Fica preso a um destino que o invade,
Mas na alma deste fado, sempre vivo,
Cresce um canto cristalino, sem idade.
Mas na alma deste fado, sempre vivo,
Cresce um canto cristalino, sem idade.

É por isso que imagino, em liberdade,
Uma gaivota que voa, renascida,
E já nada me magoa ou desencanta
Nas ruas desta cidade amanhecida.

Mas com um nó de saudade na garganta
Escuto um fado que se entoa à despedida!