Raramente tenho oportunidade de dizer. Thank you USA. Mas desta vez mordi várias vezes a língua porque a United Airlines (sim, a mesma companhia que foi alvo do 11 de Setembro), resolveu todos os meus problemas de atrasos, remarcação de voos, noite em hotel em Nova Iorque, senhas para refeições em menos de 5 minutos e sem pestanejar. Senti-me uma verdadeira cliente com direitos adquiridos irrevogáveis. E
soube bem.
Depois deste início de viagem atribulado, dois momentos a registar apenas: a chegada ao Panamá, com os seus 24º graus húmidos a premiarem-me com o primeiro verdadeiro sentimento de férias e a chegada a Santiago do Chile, com o sorriso impagável da Rosa à minha frente. Pelo caminho, ficaram pessoas: uma mãe colombiana que me tratou como uma verdadeira filha ao longo de 6 horas de voo, um fotógrafo polaco de meia idade que carregou as minhas malas com os bons modos polacos que eu bem conheço, voluntário num projecto de médicos sem fronteiras num barco que navega pela América Central, uma espanhola a viver no Panamá que defende uma revolta silenciosa dos europeus através de uma semana de total paralisação da economia e o Stéphane Thirion que, para quem conhece, apareceu do nada no aeroporto de Newark. Ia a caminho de casa, São Francisco.
E hoje a manhã é quente e doce neste jardim da casa Podgorny em Vitacura.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012
Filosofia de sofá #3
Prrimo Levi e Tullio Regge conversaram longamente durante 4 horas do meu tempo psicológico, pouco destinado a compreender grandes fenómenos químicos e físicos do mundo.
Descobri que os dias vão ter 40 horas, que a lua vai tornar-se num bilhar de ferro e que as estrelas serão um dia um buraco negro. Que tanto Regge como Levi foram auto-didactas, estudaram hebraico e leram Borges, e que sobretudo, ambos viveram cada segundo apaixonados por duas palavras: pensar e trabalhar. É absolutamente fascinante hoje imaginar o que será a felicidade diária vinda desta conjunção de prazer, dedicação e estímulo.
A palavra trabalho teve sempre uma conotação negativa associada ao sofrimento, ao cansaço e à dor, em línguas tão díspares como o latim, o grego, o alemão ou o japonês. Mas ingenuamente continuo a acreditar que o trabalho, ou seja o prazer, a dedicação e o estímulo, é o nosso verdadeiro caminho de realização pessoal. E o pensamento o seu sustento, a sua sombra, memória e futuro.
Estarei enganada?
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Filosofia de Sofá #2
Estamos em conflito, inadaptados e errantes, a devorar TEDs e, na verdade, a sermos obrigados a seguir a palavra de ordem actual: motivação.
Já nos tempos em que o homem se tornou homem e acordou num belo dia de sol eramos ser motivados. A motivação, o desejo, a curiosidade estão todos acima de uma outra coisa bem mais aflitiva: a sobrevivência. Pedem-nos por isso que voltemos ao instinto de sobrevivência, com um discurso enfeitado pela procura do eu, por uma viagem que reflecte, uma vez mais, a sociedade que criámos. À volta de uma outra palavra bem próxima da sobrevivência e da natureza do ser: o egoismo.
Como a ironia tem memória fraca, nem nos lembramos que, há poucos anos atrás, as palestras de auto-conhecimento/auto-encorajamento eram consideradas uma paródia para infortunados da vida que, em terapia de grupo, procuravam um novo rumo, uma esperança, um sorriso de um desconhecido que fosse para além de olhares mais desdenhosos do nosso cícrulo mais próximo.
Hoje parecemos estar todos neste cenário de desnorteamento. Ouvimos milhões de smart people a discursar para outros milhões de smart people com uma, vá duas mensagens: acreditem em vocês próprios e sintam-se motivados. Será disso que precisamos mesmo?
Aqui, nesta cidade e neste país, mais do que motivação, precisamos de compaixão. E de acreditar que, mesmo ao nosso lado, está um talento a brotar. E sabermos elogiá-lo, com sinceridade e apreço. E unirmos forças. E sermos mais fortes juntos.
A motivação essa, cá estará sempre, a vencer a guerra humana contra a sua própria destruição.
domingo, 15 de janeiro de 2012
Filosofia de sofá #1
Ao reler um curto ensaio sobre Jacques Rancière, de repente revi todas as actualizações de notícias, de um ano inteiro, à frente dos olhos. Uma reflexão sobre o rumo do nosso planeta que se desfaz em palavras e imagens de destruição e sobretudo de desigualdade. É aqui que Rancière se concentra e é nesta questão que eu consigo concentrar todas as verdadeiras preocupações que nos assolam hoje: a igualdade, a emancipação.
Estranhamente, há tardes de domingo que se prolongam ad eternum e nos fazem regressar a memórias literárias e a descobertas interiores que, mais dia menos dia, saltam para uma folha de papel. Como hoje.
Ao reler um curto ensaio sobre Jacques Rancière, de repente revi todas as actualizações de notícias, de um ano inteiro, à frente dos olhos. Uma reflexão sobre o rumo do nosso planeta que se desfaz em palavras e imagens de destruição e sobretudo de desigualdade. É aqui que Rancière se concentra e é nesta questão que eu consigo concentrar todas as verdadeiras preocupações que nos assolam hoje: a igualdade, a emancipação.
Sistemas em colapso, revoltas e revoluções que têm demonstrado continuamente que o ser humano tende organicamente para a paridade, destituindo valores como a riqueza e o poder e substituindo por outros que, não menos permeáveis a abusos, nos podem tornar indubitavelmente mais próximos de uma essência humana, a única crença que nos resta.
Esta essência é um todo que noz fas sentir, nos confins do Azerbeijão, que o ser humano se debate, com as mesmas armas – a sabedoria, os sentimentos, a estrutura social – numa lógica de sobrevivência que continua a definir a nossa forma de estar no mundo, tal como as estrelas continuam a orientar-nos mesmo se não as soubermos ler.
Ao ser humano e ao seu melhor amigo – o ser humano – um brinde por um futuro que se aproxime cada vez mais da sua essência.
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